Em um mundo cada vez mais dependente de tecnologias avançadas, energias renováveis e defesa nacional, dois conceitos ganharam centralidade estratégica: as terras raras (ou elementos de terras raras, ETR) e os minerais críticos. Esses recursos não são apenas matérias-primas — são o alicerce invisível da economia moderna, da mobilidade elétrica à inteligência artificial, passando por turbinas eólicas, chips e sistemas de defesa. Com a China dominando grande parte da cadeia produtiva e a demanda explodindo devido à transição energética, o tema se tornou uma questão de segurança nacional e oportunidade geopolítica. O Brasil, com a segunda maior reserva mundial de terras raras, encontra-se no centro desse jogo.
O Que São as Terras Raras?
As terras raras compreendem um grupo de 17 elementos químicos: o escândio (Sc), o ítrio (Y) e os 15 lantanídeos (do lantânio ao lutécio). Apesar do nome, eles não são “raros” na crosta terrestre — são mais abundantes que o ouro ou a prata em muitos lugares. O que os torna desafiadores é a dificuldade de extração e separação econômica, pois ocorrem misturados em depósitos minerais e possuem propriedades químicas muito semelhantes.
Os depósitos principais incluem carbonatitos (como em Araxá, Minas Gerais) e argilas iônicas. Os elementos são divididos em leves (mais comuns, como lantânio, cério, neodímio) e pesados (mais raros e valiosos, como disprósio e térbio), essenciais para aplicações de alta performance.
Minerais Críticos: Conceito e Importância Estratégica
Os minerais críticos vão além das terras raras. São elementos essenciais para a economia e a segurança nacional, mas com alto risco de interrupção no suprimento devido à concentração geográfica, desafios ambientais ou tensões políticas. Listas oficiais (como as do USGS nos EUA, da UE e do Brasil) incluem lítio, cobalto, níquel, grafite, cobre, nióbio e terras raras.
Esses minerais são “críticos” porque:
- Sustentam a transição energética (meta de descarbonização global).
- Habilitam tecnologias de ponta (eletrônicos, IA, 5G/6G).
- São vitais para defesa (mísseis, radares, jatos).
A demanda deve multiplicar-se nos próximos anos. A Agência Internacional de Energia (AIE) projeta crescimento de 3 a 6 vezes até 2040 para vários desses materiais em cenários de energia limpa.
Aplicações na Atualidade: Do Celular ao Carro Elétrico
As terras raras e minerais críticos estão em praticamente tudo que usamos:
- Ímãs permanentes de alto desempenho (neodímio, praseodímio, disprósio): Motores de veículos elétricos (VE) e geradores de turbinas eólicas. Um único VE pode conter até 2-3 kg de neodímio.
- Baterias: Lítio, cobalto, níquel e grafite são fundamentais para a densidade energética e durabilidade das baterias de íon-lítio.
- Eletrônicos e iluminação: Europio e térbio em telas e LEDs; ítrio em fibras ópticas.
- Defesa e aeroespacial: Samário em ímãs de mísseis; terras raras em lasers, radares e ligas leves.
- Outros: Catalisadores automotivos (cério), polimento de vidro, medicina (MRI) e até agricultura (remineralização).
Sem esses materiais, a transição para uma economia verde seria impossível — ou muito mais cara e lenta.
Produção Global e o Domínio Chinês
A produção global de terras raras (em equivalente de óxido de terras raras, REO) atingiu cerca de 390 mil toneladas em 2024, com projeções de crescimento contínuo.
- China: Produz ~70% (cerca de 270 mil toneladas) e detém ~49% das reservas conhecidas (44 milhões de toneladas). Domina ainda mais o processamento e refino (85-90%), incluindo a fabricação de ímãs.
- Outros produtores: EUA (~45 mil toneladas, principalmente Mountain Pass), Austrália, Mianmar, Tailândia e Vietnã.
Em 2025, a China endureceu controles de exportação sobre elementos médios e pesados e tecnologias de processamento de ímãs, em resposta a tensões comerciais com os EUA. Isso gerou alertas de escassez e aceleração de esforços de diversificação (“friendshoring”).
Mapa global de depósitos de terras raras destaca a concentração na China, Brasil, Austrália e África.
O Papel Estratégico do Brasil
O Brasil possui 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras (23% do total global), a segunda maior do mundo, atrás apenas da China. No entanto, a produção ainda é incipiente: apenas ~20 toneladas em 2024, menos de 1% do global.
O país destaca-se também em outros minerais críticos:
- Nióbio: 94% das reservas mundiais (Araxá, MG).
- Grafita: Segunda maior reserva.
- Projetos de lítio (no Vale do Jequitinhonha e outros), níquel e cobre.
Em janeiro de 2026, o Ministério de Minas e Energia anunciou o início da Estratégia Nacional de Terras Raras, visando desenvolver toda a cadeia de valor — da mineração ao processamento e fabricação de produtos de alto valor.
Projetos em destaque:
- Serra Verde (Goiás): Única mina em produção comercial fora da Ásia, com terras raras leves e pesadas. Recebeu financiamentos expressivos dos EUA (DFC) e vendeu produção inicial para mercados ocidentais.
- Outros: Projeto Caldeira (Meteoric Resources), depósitos em MG (Araxá, Poços de Caldas), Bahia, Tocantins e Goiás.
O governo busca parcerias internacionais que incluam processamento local, rejeitando propostas que reduzam o Brasil a mero exportador de matéria-prima. Investimentos previstos em minerais críticos chegam a R$ 100 bilhões até 2029.
Mapa de potencial de terras raras no Brasil, com destaque para Minas Gerais, Goiás e Bahia.
Desafios: Ambientais, Sociais e Tecnológicos
A mineração de terras raras gera impactos significativos: resíduos radioativos (devido a tório e urânio associados), consumo de água e energia, e riscos sociais em comunidades locais. O processamento é químico-intensivo e poluente.
No Brasil, desafios incluem:
- Burocracia e licenciamento lento.
- Falta de capacidade industrial para separação e refino.
- Necessidade de tecnologias sustentáveis e reciclagem (atualmente, menos de 1% dos ETR são reciclados globalmente).
Soluções em discussão envolvem critérios ESG rigorosos, parcerias público-privadas e investimento em pesquisa (SGB e universidades).
Perspectivas Futuras: Oportunidade para o Brasil
A demanda por terras raras deve triplicar até 2040, impulsionada por VEs, eólica offshore, data centers de IA e eletrificação geral. Países como EUA, UE e Japão buscam fontes alternativas à China.
O Brasil tem vantagens comparativas únicas: reservas gigantes, matriz energética renovável (hidrelétrica, solar, eólica), localização estratégica e estabilidade relativa. Se investir em processamento local, fabricação de ímãs e baterias, e políticas industriais integradas, pode transformar recursos em soberania tecnológica e desenvolvimento econômico.
Iniciativas como a COP30 (no Brasil) e acordos internacionais podem acelerar isso. O risco é repetir o modelo de commodity: exportar bruto e importar caro o produto final.
Conclusão
Terras raras e minerais críticos não são apenas minerais — são o sangue da nova economia verde e digital. A dependência excessiva da China expôs vulnerabilidades globais, criando uma janela histórica para diversificação. O Brasil, com seu potencial geológico excepcional e vontade política recente (Estratégia Nacional de 2026), tem tudo para se tornar um ator relevante e responsável nesse cenário.
O sucesso dependerá de visão estratégica: não apenas extrair, mas agregar valor, proteger o meio ambiente e gerar benefícios sociais. No século XXI, quem controla a cadeia de minerais críticos controla parte do futuro tecnológico e energético. O Brasil está convidado a entrar no jogo — e a jogar para ganhar.
Referências principais: Dados do USGS (Mineral Commodity Summaries 2025), Ministério de Minas e Energia (Brasil), IEA e relatórios setoriais recentes.
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