Mineração em alta: investimentos bilionários no Brasil e tensão nos mercados globais de minerais críticos

Nos últimos dois meses (junho e julho de 2026), o setor mineral viveu um período de forte movimento no Brasil e no mundo. Enquanto o país sul-americano avança em investimentos recordes e políticas para minerais estratégicos ligados à transição energética, o cenário internacional é marcado por preços elevados de cobre e metais básicos, preocupações com segurança de suprimento e disputas geopolíticas por recursos críticos.
Brasil: boom de investimentos e foco em minerais críticos
O destaque nacional veio do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Em julho, a entidade projetou que o setor receberá US$ 76,9 bilhões em investimentos entre 2026 e 2030 — volume 4,3 vezes superior ao previsto para o ciclo 2017-2021. Desses recursos, cerca de US$ 21,3 bilhões serão destinados a minerais críticos (lítio, níquel, terras raras, nióbio e grafite), enquanto o minério de ferro continua como o principal destino, com aproximadamente US$ 19,8 bilhões.
O Pará se firmou como um dos principais polos. O estado deve captar cerca de US$ 14,7 bilhões no mesmo período (19% do total nacional). A Vale, maior mineradora do país, reforçou sua posição com resultados operacionais sólidos no segundo trimestre: produção de 84,3 milhões de toneladas de minério de ferro (melhor segundo trimestre desde 2018), alta de 6% no cobre e crescimento nas vendas de níquel. A companhia revisou para cima as projeções de cobre e avançou em projetos de expansão, com meta de dobrar a produção do metal até 2035.
O governo federal também acelerou medidas. Em junho, preparou resolução para licenciamento ambiental especial de projetos de minerais críticos (lítio, cobre, níquel, grafite e terras raras), com prazo máximo de 12 meses. Paralelamente, o BNDES ampliou em nove vezes os recursos para o setor, pré-selecionando 56 projetos que somam R$ 45,8 bilhões, com foco em internalizar o refino e o processamento. Foi firmada ainda parceria entre BNDES e Petrobras para pesquisa e inovação em minerais estratégicos.
Outros fatos relevantes incluem a descaracterização de mais uma barragem da Vale em Minas Gerais, o avanço de projetos de grafite e lítio em Minas Gerais (como o Colina, eleito um dos melhores do mundo em relatório internacional), e o aumento de requerimentos minerários para substâncias estratégicas na Amazônia Legal, que atingiram 23 milhões de hectares.
No primeiro semestre de 2026, a mineração brasileira faturou R$ 150,7 bilhões, alta de 8,2% em relação ao mesmo período do ano anterior, com exportações de US$ 25,1 bilhões.
Mundo: cobre em alta e tensão nos minerais críticos
No cenário global, o cobre manteve preços elevados, cotado acima de US$ 14.000 por tonelada na LME em julho, impulsionado por demanda de eletrificação, data centers de inteligência artificial e redes elétricas, somada a restrições de oferta em grandes minas. O ouro permaneceu em patamares altos (próximo de US$ 4.155/oz em alguns momentos), enquanto o lítio mostrou recuperação de preços.
A Agência Internacional de Energia (IEA) publicou o Global Critical Minerals Outlook 2026, destacando que a demanda por minerais críticos continua forte e pode quase dobrar até 2040 em cenários de políticas declaradas. O relatório alerta para concentração da refinação (China ainda dominante), controles de exportação e queda de investimentos em alguns segmentos, elevando riscos de segurança energética e econômica.
Grandes mineradoras internacionais reportaram resultados mistos. A Rio Tinto manteve guidance de produção e destacou crescimento em cobre, minério de ferro e lítio. A Anglo American registrou desempenho sólido em operações brasileiras de minério de ferro (Minas-Rio). Investimentos globais em mineração superam US$ 1,5 trilhão em projetos planejados, com destaque para cobre, ouro e minerais críticos.
Temas recorrentes incluem a busca por diversificação de cadeias de suprimento (especialmente terras raras e grafite), impactos geopolíticos (conflitos e restrições comerciais) e o papel crescente da América Latina, com o Brasil posicionado como alternativa estratégica às cadeias asiáticas.
Perspectivas
O período reforça a dualidade do setor: de um lado, oportunidades de crescimento e valorização de ativos ligados à transição energética; de outro, desafios de licenciamento, pressão socioambiental e volatilidade de preços. No Brasil, a combinação de reservas abundantes, política industrial mais ativa e demanda externa cria condições favoráveis para expansão. Globalmente, a segurança de suprimento de minerais críticos continua no centro das agendas governamentais e corporativas.
O segundo semestre de 2026 deve trazer novos desdobramentos, especialmente em leilões, licenças ambientais e negociações comerciais internacionais envolvendo esses recursos estratégicos.
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